sábado, 7 de abril de 2012

A chave da chave

Olympio de Azevedo

No fechar no abrir sabemos quem são os donos da chave

Sem querer querendo tirei as chaves do bolso tilintando

Uma penca com cheiro forte de azinhavre frio sem alma

As primeiras tinham o costume do nosso tato de fato…

Chaves! Para que será mesmo que servem? E servem?

Se pudéssemos abrir desejos saberia utilizá-las sempre

Com certeza tentaríamos abrir baús de segrêdos ímpares

Tampas fechadas, tesouros e lembranças em pergaminhos

Fico pensamentando em um cinto de castidade de prata

Fora de uso, pois não mais existe artesão ferreiro do rei!

Cofres acompanhados de números embaralhados entre si

Pessoas lembram fechaduras com vários moldes de chaves!

E quando achamos a chave fazemos a festa do descobrir

Procura-se o que nunca se sabe o porquê do procurar!

Por vêzes encontramos o que nunca deveríamos ter achado

São chaves associadas a outras pencas emocionais vivas

As pequeninas chavetas no geral abrem coisas grandes

Se grande for é de algum conteúdo burguês entre tantos

Embora as minúsculas também sejam traquinas e más

Pois sabem se esconder na caixa da memória violável…

Existe a chave hábil que exige uma série de sentimentos

Provoca o lubrificante para facilitar a permissão sonhada

Fico vendo alguém bater na porta sem obter uma resposta

E Ele futuca o inconsciente – Eu te dei a chave, abra!

Presume-se que, quando não se consegue adentrar endoida!

As fechaduras limam os chegantes fora de hora! Caso real

Aí vem o nó, forma de chave flexível, comum de uso clássico

Quando bem apertado dá trabalho para abrir o laço manual

O trinco e o ferrolho têm a arte de dificultar no vai e vem

Muito útil para passagens rápidas, dividem espaços banais

Existem as chaves consorciadas no ato de fechar a dois…

Já para abrir fica com o primeiro que chegar com a própria

Elas agora se transformaram em cartões magnéticos de cor

Acendem e apagam luzes, ligam e desligam com leitura ótica

Com status do plástico, pode-se guardar sem o confundir

Há sempre uma fresta para uma ponta de flexa indicativa

Cartões e mais cartões disputam espaço no bolso do usuário

Chaves óticas se sentem uma casta aparte, privilégio do dono

Estão presentes em todos os lugares com teu nome codificado

Têm tantos símbolos que se demudam em baralhos brilhosos

Citá-los seria uma provocação prazerosa e como já gosto…

Não vou abrir mão de nomear algumas das chaves usuais:

Chave do Sucesso, de poucos, só quem tem estrela acesa

Chave da Dispensa disputada e só anda no cós da saia

A Chave de Perna a mais antiga, a única de carne e osso

Serve na vertical ou horizontal, a depender da luta marcial

A Chave de Bôca forma par com a comprida chave de fenda

É constante a atuação da Chave de Fenda com a de bôca

Chave de Cadeia, para os delinqüentes de alta periculosidade

Chave do Céu cabe e existe, mas ninguém conhece o formato!

Chave de Roda a única de socorro para usar em mão dupla

Chave de CPI um feche éclair para deputados e senadores

Chave do Coração é de quem porta sensibilidade e muito amor

Chave da Porta do Fundo para serviçal que costura prá fora

Chave do Segredo é rara e individual, faz o nó em duas voltas

Chave da Porta do… Essa abre prazeres, é uma chave micha…

O cadeado é uma fechadura móvel com chave presa no chaveiro

Pouco há de se falar do chaveiro, a chave do conserto e outras

Quem faz a chave deveria se chamar corretamente de chavereiro

Chavequeiro pode ser o colecionador das Chaves de Ouro raras

Deixo para quem tem a Chave da Lingüística à palavra chave

Há mal em se dizer que o chaveirista é puramente porta-chaves

Forma transfixada de juntar todas as chaves em um só lugar

Que mais se poderia dizer das chaves e fechaduras? Astúcie!

Pensei no que pensastes, mas é melhor sem chave, acredite…

Faça do amor a última Chave da Convivência e sem fechaduras

Quem sabe assim você abre a cidade para o cidadão universal

Não haverá o que se abrir nem fechar na liberdade de ir e vir!